Resenha | Apenas um garoto

5.8.16

 Autor: Bill Konigsberg | Editora: Arqueiro | Gênero: Young Adult | Páginas: 253 | Skoob

 Existem livros que te fazem refletir porque você se encontra na mesma situação que o protagonista, e existem livros que te fazem refletir porque esse é seu objetivo, independente se você se vê naquela situação ou não. Apenas um garoto é exatamente este tipo de livro, um livro que te fará questionar os rótulos que nós damos às outras pessoas e os rótulos que recebemos e, muitas vezes, aceitamos.

 Nesse livro nós conheceremos a história de Rafe, um menino que agora, ingressando em seu ensino médio, decide mudar de escola. Acontece que diferente do que estamos acostumados a encontrar nos livros atualmente, ele não está mudando de escola por vontade dos pais ou porque está mudando de cidade. Ele está mudando de escola para fugir do rótulo que o acompanha desde o dia em que ele saiu do armário, o de menino gay. Para muitos pode até ser um privilégio estar em uma escola onde todos sabem da sua opção sexual e mesmo assim não sofrer qualquer tipo de bullying por isso, mas para Rafe, isso é um rótulo que acaba o definindo. Acontece que não importa se ele for o aluno mais inteligente da sala, ou o mais esportivo, ou até mesmo o mais popular, todos só o conhecem porque ele é o menino gay, e ele está cansado disso, cansado de ser definido por sua opção sexual.

 Como Rafe muda de escola a procura de fugir desse rótulo, em sua nova escola ele passa a ser um menino hétero, ou em outras palavras, não assumidamente gay. Ou seja, Rafe esconde sua opção sexual de seus novos colegas, o que acaba dando certo para ele de inicio, já que assim ele consegue se aproximar dos garotos populares e atléticos sem se preocupar em receber olhares maldosos quando não estiver observando.

 Tudo daria certo para Rafe se não fosse Ben, um dos atletas que depois de um tempo se tornará seu melhor amigo e sua paixão. Com vários pensamentos controversos em sua mente, Rafe precisa decidir se irá continuar sustentando essa mentira, se irá mais a fundo em relação a Ben, ou se simplesmente continuará tendo-o como seu melhor amigo, o que definitivamente não é somente o que ele quer.
 Tenho que confessar que nas primeiras 100 páginas desse livro eu detestei o Rafe. Eu só conseguia me perguntar como poderia existir uma pessoa tão egoísta a ponto de largar o conforto e a aceitação que tem para fingir ser algo que não é. Para mim foi até triste de ver como o autor conseguiu criar um personagem gay que tinha tudo o que um gay queria, e mesmo assim se sentir insatisfeito com isso.

 Mas acontece que com o decorrer da história nós passamos a entender melhor o Rafe e até compreender como ele se sente, e é por isso que quando chega nas últimas páginas nós já não estamos mais estressados, mas sim o adorando e torcendo por ele. 

 Sem dúvidas, o tema central desse livro não é o fato de você ser homossexual, mas sim a maneira como um rótulo pode te definir. O Rafe fez todas as cagadas que fez porque ele estava cansado de independente do que ele fizesse, as pessoas só o enxergassem como o garoto assumidamente gay, e essa é uma questão muito interessante para a gente parar e refletir. Vocês acham que um rótulo ou uma característica sua pode te definir inteiramente? 

 O autor trabalhou perfeitamente esse assunto, nos mostrando diversos pontos de vistas para que a gente pudesse ver como essa é uma questão complexa e que pode incomodar muito aqueles que estão passando por aquela situação. E além do mais, ele trata de outro assunto muito importante que é você fingir ser alguém que você não é para agradar os demais e se encaixar no padrão ali imposto. Vocês acham isso correto? 
 Esse é um livro romântico, divertido e engraçado, mas acima de tudo é um livro para reflexão. E não pense que é um livro somente para os membros da comunidade LGBT. Não! Esse é um livro voltado para todo e qualquer leitor que tenha um senso crítico e que goste de se questionar. Não é um livro que você vai ler para shippar ou não shippar determinado casal, mas sim para se questionar sobre o que se passa na cabeça dos personagens para fazer com que eles ajam daquela forma. Por que será que os héteros (exclusivamente os homens) precisam estar sempre provando a sua masculinidade para as outras pessoas? Por que será que os homossexuais precisam se preocupar e sofrer com a questão de sair do armário, quando os heterossexuais não precisam se preocupar com essa mesma questão? Qual a diferença entre aceitar e tolerar alguém?

 Essas são várias das questões abordadas no texto, e o mais incrível de tudo é que o autor consegue inseri-las de uma maneira que de forma alguma ele deixe claro o que é certo ou o que é errado. Enquanto ele nos da um personagem que pensa que tal coisa é certa, ele nos da um personagem que pensa que essa mesma coisa é errada. E ai, qual dos dois tem a razão? Será que existe um lado certo? 

 Enfim, acho que eu consegui deixar bem claro qual a essência do livro. Só tenho a dizer que foi uma leitura incrível e extremamente prazerosa. Foi um livro que eu comecei odiando, mas que nas páginas finais eu me negava a dizer adeus. Espero que eu tenha conseguido com essa minha resenha super enigmática e questionadora fazer vocês sentirem vontade de lê-lo, garanto-lhes que é uma leitura super válida e que lhes renderão diversos aprendizados.

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