WE ARE ORLANDO

12.6.17

Fotografia por: Layla Fernanda

 12 de junho de 2016. Já se passaram 365 dias, mas meu coração ainda sangra, minha garganta ainda prende o grito ansioso para sair do peito, meu cérebro ainda tenta encontrar uma justificativa para tamanho ódio.

 Cinquenta. Este foi o número de vidas perdidas por conta da propagação de ódio e da falta de tolerância com a diferença. Mas a questão é: que diferença? Nossa estrutura física é a mesma, nossas qualidades e defeitos são os mesmos, nossa capacidade de pensar é a mesma, nossa forma de amar é a mesma. Sabe quais as únicas diferenças entre nós? Vocês não precisam se esconder em meio a uma sociedade que vos oprimem; vocês não precisam se preocupar em serem julgados por quem amam ou deixam de amar; vocês não precisam trancar grande parte de suas identidades dentro de um armário; vocês não precisam se privar de frequentar locais específicos; vocês não precisam fingir gostar de alguém que não gostam; vocês não precisam se preocupar em serem vítimas de comentários ofensivos; vocês não precisam se preocupar em serem inferiorizados por aquilo que gostam de ouvir, assistir ou vestir. Vocês simplesmente não precisam se preocupar. Não como nós.

 Há exatos 365 dias minha comunidade chorou em comunhão, nós nos vimos sem chão, sem apoio, sem voz. Há exatos 365 dias minha comunidade percebeu que o que conquistamos ainda não é o suficiente. Há 365 dias, não só a minha comunidade como todo o mundo pôde perceber o quanto ainda sofrermos por sermos quem somos.

 “Ele viu dois homens se beijando em Miami há alguns meses e ficou muito irritado.” Esta foi a justificativa que tivemos que engolir por conta de um terrível massacre que levou mais de 50 vidas. Se para ele foi irritante ver dois homens se beijando, imaginem como foi para mais de 50 pais e mães enterrarem seus filhos por conta da ainda presente intolerância à diversidade.

 Eu me lembro de brincar com arminhas de água junto aos meus primos durante minha infância. Nada era mais gostoso do que correr na rua debaixo de um sol de 30° e atirar água neles. Porém os tempos mudaram, e com o envelhecimento alguns decidiram trocar o instrumento de diversão por armas de verdade, armas que podem tirar vidas. Será que essas pessoas esqueceram de que não estão mais lidando com arminhas de água?

 Hoje eu posso ver, mais do que nunca, o quanto ainda somos injustiçados, o quanto estamos em desvantagem. É difícil saber quando viveremos em uma sociedade onde as pessoas se darão conta de que dois homens na rua andando de mãos dadas não é algo anormal, assim como o órgão com o qual você nasce não determina quem você é. Porém, como o bom esperançoso que sou, eu ainda acredito que tudo isso vá mudar. Eu ainda acredito que um dia seremos vistos simplesmente como seres humanos, sem precisarmos nos encaixar em rótulos que só determinam quem amamos ou deixamos de amar.

 12 de junho de 2017. Já se passaram 365 dias, mas a luta ainda não acabou.

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