O paulistano passou a viver de salário após salário?

21.10.17

 Estou sentado do lado de dentro de um dos Starbucks da Avenida Paulista, e durante todo este tempo em que estou aqui (já faz mais de duas horas), quando olho pela janela, vejo água caindo do alto do prédio. Como não estou na rua para olhar para cima e ver da onde esta água vem, não posso dizer exatamente para o que ela está sendo utilizada. Pode ser que alguém esteja utilizando-a para alguma atividade realmente necessária, mas e caso não esteja? Meu medo é sair na rua e, ao olhar para cima, ver que tem água jorrando por algum motivo banal.

 É assustador como em São Paulo as pessoas estão em um ritmo tão frenético que as vezes elas não percebem uma calamidade acontecendo bem debaixo de seus narizes, como por exemplo quando existe um vazamento de água enorme no meio da rua e todo mundo passa por ali como se nada estivesse acontecendo, como se o que tivesse sendo desperdiçado não fosse o recurso natural mais importante para a nossa existência. É claro que não posso apontar o dedo na cara da sociedade e falar o quanto estamos sendo hipócritas, afinal de contas, eu também estou, pois apesar de notar o vazamento eu também não tomo nenhuma atitude para detê-lo. Entretanto, minha crítica não se direciona às pessoas e aos seus valores, mas sim a forma como a cidade nos consome e nos faz viver em uma velocidade extremamente acelerada e frenética.

 Acredito que todos aqui saibam o quanto eu amo São Paulo e o quanto eu me identifico com a cidade e com tudo o que ela oferece. Porém não posso fechar meus olhos para os problemas que aqui existem. Recentemente, em uma conversa com uma das minhas professoras favoritas, a mesma estava me contando sobre sua experiência quando passou um semestre de sua vida em Porto Alegre e como lá as coisas são tão diferentes de São Paulo. Ela estava me dizendo que nos primeiros dias estranhou muito o estilo de vida das pessoas, pois era como se todos estivessem em um ritmo extremamente lento. Porém, com o passar do tempo ela chegou a conclusão de que na verdade não eram as pessoas que estava em um ritmo muito lento, mas sim ela que estava em um ritmo acelerado, característica que ela adquiriu vivendo em São Paulo. Foi só então que eu parei para pensar como nosso estilo de vida em São Paulo é caótico. Estamos sempre seguindo a mesma rotina, saindo da faculdade correndo para chegar no serviço à tempo, correndo atrás do ônibus porque não podemos esperar pelo próximo. Fazendo exatamente as mesmas coisas, até que chegue sexta-feira à noite e a gente saia com os amigos, gastando metade do nosso salário em uma única noite, tudo isso para deixarmos de lado os estresses da rotina semana.

 Pararam para perceber o quanto isso é louco? É como se fossemos máquinas durante a semana e só tivéssemos tempo para nós mesmos aos sábados e domingos. Não sei vocês, mas eu não acredito que isto seja saudável para ninguém, pois acaba se tornando um ciclo vicioso, onde vivemos de salário após salário, sendo infelizes durante a semana e, aos fins de semana, gastando dinheiro com coisas inúteis que nos dão as falsas sensações de liberdade e felicidade, sensações estas que se vão junto com  a noite de domingo.

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